domingo, 13 de fevereiro de 2011

Vírus da varíola na mira


Especialistas dividem opiniões sobre a possível decisão da OMS de destruir as últimas amostras vivas do ‘O. variolae’ cultivadas em laboratório. Os estoques poderiam ser usados tanto para novas pesquisas quanto como arma biológica.
Por: Sofia Moutinho
Publicado em 09/02/2011 | Atualizado em Feb 10, 2011
Vírus da varíola na mira
Até maio deste ano, integrantes da OMS devem se reunir para marcar uma data para a destruição dos últimos estoques de vírus da varíola. (foto: Fred Murphy/ CDC; montagem: Sofia Moutinho)
Volta a ser discutido o destino dos dois últimos estoques do vírus da varíola, doença que matou 500 milhões de pessoas somente no século 20. Depois de vinte anos de adiamento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) deve fazer uma assembleia em maio para decidir se vai ou não marcar uma nova data para a destruição das amostras, que estão sob seu controle em laboratórios nos Estados Unidos e Rússia.
A OMS deve se reunir em maio para decidir se vai ou não marcar uma nova data para a destruição das amostras do vírus da varíola
A varíola foi erradicada em 1980. Na ocasião, representantes de diversos países se pronunciaram a favor de exterminar todos os vírus Orthopoxvirus variolae vivos em laboratórios. Apenas dois estoques foram preservados: um no centro russo de pesquisa Vector Institute e outro no Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos da América. Representantes dos dois países alegaram que as amostras deviam ser preservadas para pesquisas de novas vacinas e medicamentos.
Em 2007, a OMS iniciou uma revisão das pesquisas feitas com o vírus in vitro desde 1999. Os resultados preliminares, apresentados em outubro do ano passado, apontam muitos avanços, como o sequenciamento de 48 cadeias de genes do vírus e o desenvolvimento de novas vacinas e métodos de diagnóstico.
Por outro lado, o relatório oficial, apresentado em janeiro, indica que estão atrasadas as pesquisas sobre o modelo de infecção da chamada varíola do macaco, variante mais branda da doença que, apesar do nome, é transmitida por roedores.
Segundo o virologista estadunidense Jack Woodall, professor aposentado do Instituto de Bioquímica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, esta não seria uma razão para se manter os estoques de O. variolae. “O vírus utilizado nas vacinas atuais de varíola, o Vaccinia, também protege os humanos contra a varíola do macaco”, explica.
Para o pesquisador, a destruição dos estoques é uma questão de segurança pública. “Os perigos são maiores do que os benefícios de continuar com as pesquisas”, diz ele. “Os laboratórios que ainda estão trabalhando com o vírus podem ser de alta biossegurança, mas nada evita que um pesquisador se contamine lá dentro e leve a doença para casa, iniciando uma epidemia.” Woodal destaca que essa situação não é apenas hipotética e já aconteceu em 1977.

Arma biológica

Vacina contra a varíola
A primeira vacina contra a varíola foi criada em 1796. No entanto, a doença só foi erradicada em 1980, depois de matar 500 milhões de pessoas durante o século 20. (foto: James Gathany/ CDC)
A varíola também poderia ser usada como arma biológica de grande impacto, pois hoje a vacinação em massa não é mais feita e poucas pessoas estão imunizadas.
“A varíola tem um tempo de disseminação muito adequado para ataques terroristas”, explica o historiador especializado em saúde Gilberto Hochman, da Fundação Oswaldo Cruz. “Assim como pode haver um homem-bomba, pode existir um homem-varíola. Basta uma pessoa se inocular com o vírus e entrar em um aeroporto que o vírus já começa a ser transmitido.”
Segundo Hochman, além do uso por terroristas, a varíola corre o risco de ser utilizada como arma militar. Um dado que corrobora essa possibilidade é o fato de os soldados estadunidenses ainda serem vacinados contra a doença. Além disso, a OMS e outras instituições de pesquisa têm simulações de ataques biológicos com varíola, o que mostra que esse não é um cenário improvável.
A ameaça de um ataque biológico foi um dos argumentos usados para o adiamento da destruição dos estoques do vírus em 2002. Pesquisadores que compunham o quadro da OMS alegavam que as amostras seriam úteis para o desenvolvimento de novos remédios caso fosse preciso combater uma epidemia surpresa de varíola.

Fonte de pesquisas

Hoje a posição da OMS parece ser favorável à destruição. No entanto, a epidemiologista Erna Kroon, coordenadora do Laboratório de Vírus da Universidade Federal de Minas Gerais, acredita que os estoques do vírus não devem ser destruídos por constituírem fonte de muitas pesquisas.
“Destruir os estoques não impede que alguém isole o vírus de um cadáver congelado ou que pesquisas com genes sintéticos sejam feitas”
A pesquisadora argumenta que, se os estoques estão bem guardados, não há risco em mantê-los. E ressalta que a destruição não exclui a possibilidade de existirem outras amostras ilegais pelo mundo e, até mesmo, de o vírus ainda resistir na natureza. “Destruir os estoques não impede que alguém isole o vírus de um cadáver congelado ou que pesquisas com genes sintéticos sejam feitas”, alega.
Até hoje, apenas alguns genes do vírus da varíola foram identificados. Em 2005, a sintetização do DNA completo do O. variolae foi proibida pela OMS. Mas, para Kroon, nada garante que essa resolução seja cumprida.
Já Woodall defende que a possibilidade de o vírus voltar a circular devido ao terrorismo ou a causas naturais é muito remota. “As últimas vítimas de varíola foram enterradas em países tropicais e até hoje não houve novas ocorrências da doença”, conta.
O pesquisador lembra ainda que, para sintetizar a primeira bactéria em laboratório, feito anunciado em maio do ano passado, foi preciso uma equipe de mais de 20 pesquisadores e tecnologia de ponta, estrutura a que terroristas não teriam acesso.

Ecologia e ética

A extinção proposital de uma espécie, mesmo que de um vírus, suscita questões éticas e ecológicas
A extinção proposital de uma espécie, mesmo que de um vírus, suscita ainda questões éticas e ecológicas. Kroon acredita que a eliminação da varíola não teria, a princípio, impactos negativos para o equilíbrio ecológico.
Já Woodall é mais veemente em afirmar que não há problemas éticos ou ecológicos na destruição do vírus. “Se a falta do vírus na natureza causasse algum impacto negativo, ele já teria se manifestado há tempos”, comenta. E finaliza: “Na minha opinião, a raça humana tem todo o direito de eliminar qualquer ameaça a sua sobrevivência – é uma lei natural e é nosso dever em relação às gerações futuras.”

Sofia Moutinho

Ciência Hoje On-line

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O benefício da dúvida


Pesquisa revela desejo comum de diversos cientistas, filósofos e artistas: é preciso divulgar a ideia de que a ciência não é infalível. Para os pensadores, essa é uma maneira de aproximar os cidadãos de questões controversas do meio, como as discussões sobre as mudanças climáticas.
Por: Thiago Camelo
Publicado em 19/01/2011 | Atualizado em 19/01/2011
O benefício da dúvida
A dúvida representada pela interrogação. A certeza, pela exclamação. A ciência navega, ora incólume, ora com farpas, entre os dois extremos. (foto: Mister Kha / CC BY-NC 2.0)
Karl Popper, um dos filósofos mais influentes do século passado, apontou para o fato de que, para ser validada, uma teoria científica deve necessariamente ser confrontada, desafiada, falseada. Dizia que, do contrário, a teoria poderia se tornar dogma – e qualquer dogma, para Popper, seria terrível para a ciência.
Há relevância nos erros, incertezas e dúvidas
É curioso notar como o raciocínio de Popper vai ao encontro de um texto publicado pelo jornal britânico Guardian sábado passado. A matéria repercute uma pesquisa realizada pela revista eletrônica Edge, que faz, todo ano, uma pergunta para centenas de especialistas de áreas distintas com o objetivo de colher tendências. A pergunta de 2011 é: "Qual conceito científico poderia aprimorar a ferramenta cognitiva de uma pessoa?"
Artistas, cientistas e filósofos responderam a questão. Surpreendentemente, muitos deles destacaram a relevância dos erros, incertezas e dúvidas para a ciência e ressaltaram a importância de esses aspectos inerentes ao empreendimento científico serem melhor divulgados ao público não especializado.
A CH On-line procurou cientistas brasileiros para saber o que eles pensam sobre a questão levantada pela Edge e sobre as respostas apuradas pela revista até o momento.
"É realmente fundamental desmistificar o trabalho do cientista. A questão principal é que, ao pesquisar, você lida necessariamente com o desconhecido, então, é claro que há erros e dúvidas, é isso que nos impulsiona", diz  o físico Caio Lewenkopf, da Universidade Federal Fluminense (UFF). 
"Existem matérias que são intrinsecamente complexas, como, por exemplo, os modelos utilizados para mensurar as mudanças climáticas. Temos inúmeros indicadores de várias décadas e alguns cientistas divergem sobre essa questão", completa Lewenkopf.
O físico cita justamente um dos pontos colocados no texto do Guardian: assuntos controversos como mudança climática seriam menos polêmicos na esfera social caso fosse divulgado, com mais clareza, que a natureza da ciência comporta a dúvida.

Relativização

Osvaldo Frota Jr., físico e doutor em história e filosofia da ciência e membro do Departamento de Letras da Universidade de São Paulo (USP), faz coro. Para ele, mesmo os objetivistas, aqueles que tendem a não relativizar muito a ciência e a enxergam de modo positivista, sabem que a matéria que estudam é feita de dúvida.
"Mesmo quem não é um relativista ou, na antropologia e sociologia,  pós-moderno, sabe reconhecer que a ciência é calcada em incertezas", comenta Frota Jr.
“Dizer que a ciência é falível, no ponto de vista da filosofia da ciência, é uma trivialidade”
A conversa com um cientista social toca na mesma tecla, embora haja um estranhamento do teor da matéria do Guardian. "Dizer que a ciência é falível, no ponto de vista da filosofia da ciência, é uma trivialidade. Mas não tenho certeza se, de fato, a sociedade acredita que ela é infalível", afirma Renan Springer de Freitas, sociólogo que estuda temas relacionados à ciência na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Freitas afirma que sua visão de ciência é objetivista. Ou seja, ele acredita que a ciência traz consigo uma verdade. Uma verdade, no entanto, que pode – e deve – ser questionada.
"A ciência tem o privilégio do debate, da possibilidade de discordância. Isso, no entanto, não a coloca em xeque. Muito pelo contrário", defende o sociólogo.

Thiago CameloCiência Hoje On-line